Isadora Flores

Me chamo Isadora e sou produtora cultural há 13 anos. Nasci e vivi a maior parte do tempo em Curitiba, mas já morei no Rio e em Salvador e, desde janeiro, voltei a morar em Salvador.

Em meio a tantas adversidades causadas pela pandemia, desde a saúde mental enfraquecida, mudanças forçadas, desafios da militância no campo das políticas culturais, comecei um projeto em que assumi o papel de professora de produção, função que já desempenhei em outros tempos e que me faz muito feliz, pois ensinando aprendo muito. 

Mas como se aprende produção fora de campo? Como forjar um planejamento, uma montagem? Como lidar com um problema que obrigou a produção a rever os planos? É possível? Confesso que ainda não sei responder. Estou tentando e um dos exercícios que propus foi inventar um problema de produção. Foi bem engraçado. Muitos escreveram coisas como “o equipamento queimou”, ou “a polícia chegou para parar o evento porque os vizinhos reclamaram do barulho”. A segunda parte do exercício era resolver este problema inventado pelo colega. Foi absolutamente divertido e senti muita saudade dessa adrenalina. Aquele barulho do terceiro sinal. 

Falando em terceiro sinal, vou trazer um breve relato sobre uma confusão engraçada que fala um pouco sobre experiência.

Teatro Dulcina, centro do Rio de Janeiro. 2014.

– Isa, você pode tocar o sinal? 
– Claro, tranquilo. Onde fica? 
– Atrás da cortina do lado esquerdo.
– Ok. Só tocar três vezes né?
– Sim, três vezes. 15 minutos antes, 10 minutos antes e na hora de começar.
– Tá bom.
– Péeeeee (faltando 15 minutos)

– Péeeeee (faltando 10 minutos). 

Nisso percebo uma movimentação estranha, a equipe do teatro correndo de um lado para outro desesperada. É o primeiro sinal?

– É o primeiro sinal?
– Não, é o segundo.
– Ué, mas tocou só uma vez?
– Sim, mas da segunda vez.
– Meu deus, garota, quer matar a gente!

O que aconteceu: eu toquei o sinal errado e iríamos ficar eternamente achando que estávamos no primeiro sinal. Eu não me lembrei do óbvio: o primeiro sinal toca uma vez, o segundo toca duas vezes, o terceiro, na hora que a peça vai começar, toca três vezes. Simples. Consegui confundir o público, a equipe técnica e o elenco de uma só vez. Mas aprendi pra sempre. Se quiserem que eu toque seu sinal (depois que a pandemia passar), podem me chamar.

Voltando para o curso de produção: como ensinar algo que a gente aprendeu vivenciando no corpo e, ainda por cima, online? Ao escolher o nome do projeto pensei em possibilidades que definissem o que é ser produtor cultural, alguma característica que fosse fundamental para esta profissão, e cheguei a um nome: Garra¹. Primeiro, porque nunca foi simples. Desde o início, quando me meti nesta profissão, mesmo em um contexto completamente outro, da cultura no centro da política, Gilberto Gil ministro (sonho). Nunca foi fácil. Sobretudo a entrada no universo das políticas de fomento. Horas de leitura de páginas complexas que eu entendia muito pouco e tinha vontade de desistir sempre, listas de documentos, formalizações, procedimentos, responsabilidades e a temida prestação de contas. 

É importante achar quem está na trincheira ao nosso lado e com quem contar, mas, para além disso, tem que ter aquela vontade louca de fazer algo, mais conhecida como garra.

Isadora Flores

Neste início tive parceiras incríveis de trabalho e, quando não sabia algo, perguntava para quem sabia e ia até o inferno se precisasse para aprender. Tive muitas oportunidades profissionais e, com isso, fui aprendendo aos poucos, errando também e com muitas ajudas que foram cruciais. O meu curso foi esse. Acho que o nome Garra também vem da inspiração que tenho ao ver outras profissionais atuando, muitas vezes operando milagres. Já vi cenas ótimas de gritar: não acredito!, já conseguimos coisas incríveis como equipe, já nos abraçamos e pulamos em rodinha algumas vezes. 

Hoje minha missão com o Garra é instrumentalizar jovens produtores para acessar políticas de incentivo à cultura e mostrar como realizar projetos de uma forma simplificada, como quem diz: “Vai por aqui. Vira à direita e depois de duas quadras você chega”. Se estamos conseguindo extrair algo dessa experiência pandêmica? Acredito que sim. Ouvi depoimentos muito importantes nos últimos tempos, e também achei bonita a troca entre os grupos que se formaram para a entrega dos trabalhos. A partir do Garra alguns projetos já viraram sementes e estão no mundo. Pensei em muitas coisas. Claro que com o som mutado e sem poder olhar bem nos olhos sinto uma frieza natural de reuniões online. Falta a dimensão presencial do entendimento que a gente acessa de outras formas. E sim, falta a prática da produção, aqueles detalhes que aprendemos vivenciando. 

Quem trabalha com cultura entende logo que nós somos uma rede. E esta teia é tecida por quem veio antes, aprendeu antes, por quem está aprendendo, e assim vai. É importante achar quem está na trincheira ao nosso lado e com quem contar, mas, para além disso, tem que ter aquela vontade louca de fazer algo, mais conhecida como garra. Ou sangue no olho, fibra, energia, empenho, disposição, persistência, entusiasmo. Sem isso, não tem produção.

¹ O Garra Lab é um curso profissionalizante e gratuito, realizado com incentivo da Lei Aldir Blanc, conquista histórica do setor cultural.

Isadora Flores é uma mulher cis, branca, filha de artistas e do signo de áries. Ama cozinhar, de preferência ouvindo sons com o grave pronunciado. É produtora e trabalha em projetos diversos. Não dispensa uma montagem / desmontagem nem a cerveja depois. Nasceu em Curitiba em 1989 e reside no Rio Vermelho, em Salvador.

vol. 1, no. 1 – 2021

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