Bruna Cruz

Atenção!

A tensão que nos move
É a mesma que nos morre
Com descrédito
Contensão


Não há são que dela escape
Ação que arremate
Matemática que subtraia


Que ela traia vesgos números
Contraia frouxos súditos
E saia por entre os músculos


Sensibilize os espinhos do nosso tempo
Escandalize seus frutos
Hiperative os caminhos.

Obra em diálogo: Colagem digital sem título de Henderson Oliveira

O texto foi produzido e anotado em caderno de campo durante uma pesquisa sobre a produção do diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em um serviço público de saúde de Belém. O TDAH, ao longo do processo, revelou-se sintoma não de pessoas, mas de um mundo pilhado, saturado e tenso. O poema diz de um processo de mundo, de agonia e contradição, no qual os corpos são colocados em fervorosa produção, a despeito de estarem gastos e atordoados por toda sorte de distrações. A maquinaria da tensão que as palavras evocam funciona pela via da sedução, pelo convencimento de que podemos turbinar a vida, manuseá-la e convertê-la em alta performance. A vida curiosamente pode escapulir dessa teia e vadiar o quanto for, habitar outras alturas, mas é preciso atenção – ou a falta dela.

Imagem: recorte do caderno de campo. Trecho extraído do Manual de Psiquiatria Infantil, de J. de Ajuriaguerra, no acervo do Museu da Medicina do Pará.

Bruna Cruz é uma mulher cis branca de Belém. Artista da cena, da música e também psicóloga, nascida e adubada em solo amazônico. Anda por muitos caminhos no tom de vivificar o que pode cuidar, fazer bem ou engrandecer, pela via da sensibilidade, das belezas, do corpo em movimento e da conexão com o mundo. Quando a roda se abre, puxa no canto, no batuque, no traquejo do corpo, ou mesmo na escuta atenta, toda memória do que comeu nas terras onde pisou.

vol. 2, no. 2 – 2021

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