Joana D’Aguiar

A convocatória do LabCenas apareceu em um período de muitas reflexões. Sobre o momento que estamos vivendo, sobre o teatro no meio disso tudo, sobre como viver de arte em um tempo tão complicado… enfim… acredito que assim como muitos artistas, acordo e vou dormir me perguntando quando e onde tudo isso vai parar. 

Com esse “pensador aberto” e matutando como apresentar algo que realmente valesse a contribuição, fui dar uma pesquisada sobre o que tem se falado da cena aqui na Bahia.

Antes de seguir adiante, abro aqui um parêntese para apresentar uma mini-bio para vocês saberem quem é essa apaixonada das artes que vos escreve (prometo me ater aos 1.000 caracteres que todo produtor está acostumado). Meu nome é Joana, sou baiana, soteropolitana, comecei a fazer teatro aos 11 anos no Colégio São Paulo e desde então nunca mais consegui largar dele. Até tentei… fiz faculdade de jornalismo, trabalhei na área, me pós-graduei, mas o teatro é daqueles bichinhos que quando te mordem, não  tem salvação. Aos 25 fui para o Rio tentar desbravar novos mares. Arriscar trabalhar com produção profissionalmente pela primeira vez na vida. Fui para ver, em bom baianês, “qualé de merma” e nunca mais voltei. Ops! Nunca mais é muito pesado para quem, no meio da trajetória, esbarrou com uma pandemia… mas isso é outra parte da história. Voltando a minha pesquisa sobre a cena por aqui, esbarrei na gravação de uma live do próprio LabCenas, o LabFórum, com o tema “Repensando o Teatro – Em que Cena Estamos?” e fui flechada por muitas das falas daqueles artistas incríveis que foram convidados.

E aí eu começo a dividir com vocês o que anda elocubrando meu “pensador aberto” inspirada pela fala de Fábio Osório, o qual eu conheço um pouco do trabalho lá dos idos no início dos anos 2000 com o seu grupo Dimenti, quando ele fala que não dá para fazer e falar de teatro sem ter um engajamento, um posicionamento. Eu lembro que quando cheguei no Rio a impressão que eu tive é que eu tinha chegado quase que em um paraíso cultural. O cenário era completamente diferente do que o que se apresenta hoje, apenas 10 (quase 11) anos depois. Essa história de como era a cena cultural naquela época e o que é hoje tem um arco dramático bem triste, na real. Eu cheguei no Rio e nosso Ministro da Cultura era Gilberto Gil. Sim! Um dia nós tivemos um Ministério todinho para chamar de nosso, da Cultura. E um dia sua principal cadeira foi ocupada por ninguém menos que o mestre Gil.

Desestabilizou-se uma classe que gerava milhares de empregos e fazia a economia girar como em qualquer outro setor.

Joana D’Aguiar

Se você comparar com os dias atuais em que o máximo que nos é oferecido é uma “secretaria especial” que ora é jogada no Ministério da Cidadania, ora no do Turismo e quem senta na sua cadeira são figuras, digamos…ah! Sei lá! Dá um Google e tira suas conclusões porque confesso que sequer consigo adjetivar essas pessoas sem ser indelicada. Faz uma comparação rápida, de juízo de valor mesmo, e me diz se só esse fato já não é o bastante para concluir em que ponto nós chegamos. Naquela época o Rio tinha teatro aberto e lotado de segunda a segunda, com todos os estilos, gostos e temáticas. As políticas públicas, por mais problemáticas que fossem, funcionavam. A roda girava e nós podíamos dizer e nos orgulhar que fazer arte era sim uma profissão. 

O tempo foi passando e o lógico de tudo isso seria que nosso terreno prosperasse. Que nós pudéssemos continuar colhendo os frutos, produzindo mais e mais e espalhando arte por todo canto. Mas não sei que raios de chave foi essa que virou (aliás, sabemos todos muito bem que chave foi essa) e tudo foi definhando. Em menos de cinco anos o público sumiu, os teatros públicos, muitas vezes responsáveis pela viabilização de muitos projetos, começaram a fechar com a desculpa de falta de dinheiro, assim como os incentivos e editais foram aos poucos virando pó. Desestabilizou-se uma classe que gerava milhares de empregos e fazia a economia girar como em qualquer outro setor. 

A crise foi se instalando e fazer teatro virou ato de resistência. É cada dia mais comum ouvir que uma temporada foi levantada “na raça”. Na cara e na coragem, tirando dinheiro do bolso. Mas que bolso? Se bilheteria não paga mais nenhuma conta porque não se tem mais público e não temos mais patrocínio e financiamento, como essa matemática fecha? Pois é, meus amigos. Não fecha! 

No ponto em que chegamos, fazer teatro não pode mais se resumir a entretenimento puro e simples.

Joana D’Aguiar

A nossa cerejinha no bolo foi a pandemia. Se já estava difícil antes, imagina agora. Viver de arte já não é mais possível. Conta nos dedos quantos artistas começaram a fazer bolo, acarajé, voltaram a estudar ou para a casa dos pais ou de algum familiar, ou até que dependem de doação de cesta básica para conseguir sobreviver. Eu conheço aos montes. Sou uma delas, inclusive. A ficha caiu e, infelizmente, temos que admitir que não existe mais a possibilidade de se juntar arte e profissão, pelo menos não no teatro. 

Por tudo isso a fala de Osório, que comentei lá no início do texto, mexeu muito comigo. No ponto em que chegamos, fazer teatro não pode mais se resumir a entretenimento puro e simples. Precisamos nos engajar, nos posicionar. Não necessariamente fazer um teatro panfletário e gritar para confrontar. Mas, assim que possível, realizar um teatro que inclua, conscientize e, principalmente, transforme. Que se faça cumprir sua principal função de ser ferramenta de transformação de uma sociedade. Que faça nosso povo voltar a pensar, já que o plano para a cultura e a educação é justamente o contrário. 

Depois de tanto falar dos problemas que andamos enfrentando, eu não queria terminar essa contribuição em tom de velório. Se algumas das falas daquele fórum me atravessaram tanto, essas mesmas falas me servem de combustível para seguir. Se existe, hoje, um plano político arquitetado bonitinho para acabar conosco, gostaria de informar aos prezados senhores que sinto muito! A gente enverga mas é ruim que a gente se deixa quebrar! Caetano bem já cantou a bola: “E onde queres bandido, sou herói”. Seguimos…

E, ah! Assistam o LabFórum! Discussão incrível e necessária. Coloca o link aí, produção!

Foto: Moisés Vitório

Joana D’Aguiar é uma mulher cis branca, produtora baiana radicada no Rio de Janeiro desde 2010. Vencedora do prêmio de melhor direção de produção no prêmio CBTIJ de Teatro para Infância e Juventude 2019 pelo musical infantil Ombela – A Origem das Chuvas, Realizou produção executiva de espetáculos teatrais, como Também Queria te Dizer – Cartas Masculinas, Sexo, Drogas & Rock`n`Roll, Pulsões, do musical infantil Lá Dentro Tem Coisa, e Doce Pássaro da Juventude. Assina direção de produção dos espetáculos Catástrofe da Borboleta, Anatomia Comparada e Por Que Os Prédios Caem?, Aqui Jaz Henry, e das temporadas cariocas de Love, de Cyria Coentro. Fazedora de arte, cegamente apaixonada pelo teatro.

vol. 2, no. 2 – 2021

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