Moisés Victório

Em qual porção da história da humanidade podemos apontar relações sociais imunes às ações políticas? 

No “Jardim do Éden” havia política restritiva quanto ao consumo de um “fruto”; Jesus foi condenado à morte pela suprema corte do legislativo da província romana da Judéia; o Brasil foi invadido pelos europeus durante a política de expansão marítima do império português; uma política escravocrata de comércio de seres humanos obrigou, por séculos, milhares de pessoas ao trabalho forçado, em condições sub-humanas; ao menos nove golpes de Estado o Brasil sofreu de 1822, ano da independência, até os dias de hoje; pessoas negras e faveladas são mortas diariamente em todo país, porque existe uma política de execução desses corpos, desse núcleo social.

E você, em qual colégio estudou? 

Utiliza o SUS ou tem convênio? 

Bebe Heineken ou Schin? 

Vai de Uber ou de ônibus? 

Já tomou um tapa gratuito da polícia que deveria te proteger? 

Quantas mães solteiras você conhece? 

Qual a cor da pele dessas mães? 

E a classe social?

E o que a arte tem a ver com isso? Tudo. Em absoluto! A arte é produto do ser humano, e toda relação humana está imbuída em questões políticas que perpassam deficiências e violências históricas e estruturais que infectam a base da formação de todo indivíduo. Como o acesso à informação, a construção do senso estético, a formação humanística, espiritual e religiosa, além de outros fatores amplamente referendados nas famílias, como transferência de capitais financeiro e social – e também a falta deles. 

O mercado das artes, por sua vez, reflete composições sociais já postas, reorganizando suas cadeias hierárquicas e estruturas de poder assemelhando-se aos moldes legitimados e ultrapassados das sociedades que o compõem. Em geral, pessoas brancas, do sexo masculino, de meia idade, ocupam grande espaço de poder e prestígio no meio artístico, – qualquer semelhança com o congresso nacional brasileiro, não é mera coincidênia – seguido deles, mulheres brancas ocupam o segundo lugar nessa pirâmide.

Onde eu quero chegar? 

Onde eles permitem que eu chegue? 

Quem constrói as políticas públicas culturais no Brasil? 

No seu estado!? 

Na sua cidade!? 

Quem dirige o centro cultural mais perto de você?

Nas aventuras dramatúrgicas, se formos aos grandes clássicos brasileiros, logo encontraremos os mesmos padrões se repetindo, desde os malandros e suas óperas, até os perdidos numa noite suja. Em um passado bem próximo, foi preciso experimentar um outro jeito de fazer teatro, de olhar para os discursos e então chamá-lo de negro, para garantir algum espaço. 

Se partirmos para os bastidores, as discrepâncias não só se mantêm, como se acentuam. Ainda estamos falando da mesma estrutura que pré-definiu (há séculos) e garantirá que no carnaval de 2030 o cordeiro do bloco – que ganhará 30 reais por dia – protegerá o folião – que pagará 1.500 reais por dia – para viver uma experiência ‘casa-grande e senzala’ vintage, da melhor qualidade.

Técnicxs em iluminação, sonorização, cenotécnicxs, roadies, seguranças, motoristas, carregadorxs, na ciranda da vida – e a arte imita a vida – quanto mais peso você carrega mais escuro fica e menos valor possui. Não, eu não me referia somente ao tom de pele – cordeiro vs folião – falava também da subvalorização do trabalho no contexto da indústria do entretenimento.  Mas que bom que você notou!

Se toda fome é uma escolha política, podemos então confabular sobre as urgências criativas, que acionam, direcionam e impulsionam as poéticas centrais de processos artísticos? Pode haver quem discorde, mas gosto de pensar que sim.

Ao considerarmos aqui a fome como metáfora para aquilo que nos falta (uma representação da vontade, do desejo, e análoga ao sentimento genuíno da busca por algo intrínseco à nossa existência e sobrevivência), e compreendendo as conexões históricas entre fome, renda e raça, presentes em todas as sociedades, posso arriscar afirmar que tanto a fome quanto a arte são moldadas por ações políticas, já que são correspectivamente, ação e re-ação dos arroubos de uma sociedade. Portanto, não seria possível desentrelaçar “fome” e arte, tampouco, arte e política.

Processos criativos possuem origens, densidades e reverberações diversas, incabíveis aqui. O que ponho à mesa, é a impossibilidade dissociativa do artista como agente político do seu tempo. Os contextos podem e irão variar, mas se a condição essencial do ser artista (indivíduo que labora e elabora o sensível, através de interfaces tangíveis e intangíveis, no intuito de compartilhar ao mundo percepções dos avessos que lhe habita) permanecer íntegra, essa análise primária levantará algumas perguntas.

Qual valor tem o discurso de quem não encena, não interpreta, não dirige, “não traduz” o sensível? 

Quanto vale o suor do cenotécnico no linóleo onde flutua a primeira bailarina? 

Quanto vale a precisão do iluminador no palco onde brilha a estrela? 

Quanto vale a acuidade do sonotécnico onde ressoa a voz de ouro? 

Devemos todas e todos nos fazermos essas perguntas como hábito. Nos cabe, sempre que possível, mitigar os efeitos estrondosos dos alijamentos sociais, econômicos e intelectuais, perpetuados no tempo, na história e na vida de nossos pares. Ao nos conectarmos com a “fome” que nos habita e nos induz a criar, devemos lembrar que muitxs dxs nossxs carregam consigo uma fome genuína, não-poética, implacável. 

Que se alimenta dos sonhos, dos futuros, das vidas. 

Que se apresenta firme e densa, mas anseia, fina e tenra, por um prato de comida.

Obra em diálogo: colagem digital de Henderson Oliveira

Moisés Victório é um homem negro, artista, pai de uma adolescente, adepto às filosofias etno-religiosas de matriz africana. É iluminador cênico, gestor, músico, agitador, reside e atua, sobretudo, em Salvador. Anda interessado em minhocas e plantas frutíferas, curioso sobre astronomia, fontes de luz e está passando a quarentena com sua família, suas plantas e seu violão.

vol. 2, no. 2 – 2021

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