Sueka

Gosto de caminhar à noite pela cidade. É quando as luzes estão mais acesas e ainda certas coisas ainda continuam ocultas e posso sentir o risco. Corre em minhas veias a possibilidade de um tiro ou quem sabe esbarrar contigo, fazer um levante com os sem-teto, posso até fazer amor inverso, no caso, ódio. 

O gato da porta da garagem observa, à espreita, o rato sair do esgoto. Em direção ao lixo, o roedor avança devagar, sondando com suas narinas tudo que há no ar. Umidade do ar: perigoso. Continua a avançar e chega ao osso desejado. Um pedaço grande, branco, pescoço de frango. 

Manso, o gato se adianta, numa golada de ar, em um salto que não se pode mensurar. Ou, talvez quem sabe, quisesse alcançar o céu. Suas garras logo pousaram no lixo batido e seus dentes afiados rasgaram a carne. Ataque. São dois animais distintos, mas ainda assim bichos. 

O rato se debatia sem escapar da boca do inimigo. Mordendo, o gato seguia por instinto apesar de todo alimento oferecido em casa. Assim como nós, que sabemos os passos, mas recuamos no espaço. E somos mesmo civilizados? 

Corre sangue de inocentes. Outros além de Cristo. E na semana passada foi Páscoa e o peixe era a velha batida carne. Preta. Preta. Preta. Preta. Preta. Preta. Preta. Preta. Preta. Preta. Preta. Preta. Servida à mesa. Desde sempre esta história não foi tão louvável, apenas mudamos o estado natural do caos, para outro. Organizado. Civilizado. 

Como se configura o gato? É mesmo domesticado? Quem mantém os ossos? Dos vários corpos expostos. Duro feito pescoço. Os conflitos acontecem em toda parte, no esgoto, na casa segura do alimento mantido.


E continuam em todo infinito.

Até ser abocanhado por outro bicho. 

E ainda temos a audácia de dizer “civilizados”.

Obra em diálogo: colagem de Henderson Oliveira

SUEKA O meu atual projeto é um romance, intitulado OUTUBROS, que se passa no Rio de Janeiro de 2014 em meio aos protestos políticos que tomaram conta das ruas. Parte da história do romance de um jovem casal gay interracial, suas escolhas, conflitos pessoais e externos. A história de Ayo, uma professora trans, cuja vinda para o Rio de Janeiro se apresenta como um mistério, aos poucos se entrelaça com os dramas de vida do casal e com o cenário político da cidade. Sou Historiadxr formadx na UFRRJ e curso o mestrado em História das Ciências e da Saúde, na Fiocruz-RJ. Busco em minha trajetória e escrita evidenciar as complexas redes de estruturação do mundo, para que possamos almejar futuros mais horizontais e possíveis de convivência, respeito, igualdade e garantia de vida/direitos essenciais.

vol. 2, no. 2 – 2021

Deixe aqui seu comentário.