vol. 2, no. 2 – 2021
No I Seminário Arte e Pensamento Quilombola, proposto pela Academia de Letras da Bahia, Bernadete Pacífico, perguntada sobre a arte quilombola, incluiu no rol – junto com reza, artesanato, culinária, música, literatura – “a arte de viver, a arte do deitar, a arte do se levantar”.
Isso me tocou profundamente.
Aqui na minha bolha, quando nos perguntamos como estamos, das duas, uma:
– ou as respostas geram imagens ruidosas, aparentemente controversas, aliando um estado extremo de cansaço a regimes vertiginosos de sobrevivência;
– ou as respostas nos remetem a imagens a um peso incontornável de escassez em contornos onde inexiste a possibilidade de repouso.
(Pensando bem, essas duas talvez sejam a mesma.)
Esta revista chega até vocês através desta impalpável e inescapável nuvem com semanas de atraso, por motivos tantos. Mas, vários que são, todos em sinonímias de exaustão e escassez.
Uma das razões pela demora da saída da revista é que precisamos priorizar demandas remuneradas. Outra, pelo esquema sádico de onda de editais a baixo retorno que têm a pachorra de escrever no regulamento de que esperam projetos que emocionem os curadores1.
AMADX, como assim? Como assiiiiiiiiiiiiiiiim?
Estamos exaustxs e não podemos parar. (Beckett2 nunca foi tão citado fora de círculos cult de teatro experimental). Estamos exaustxs e recai sobre nós Fazedorxs de Arte – além de todas as artes listadas por Bernadete – uma expectativa de maravilha, de uma luz criativa, uma resposta, um empacotamento poético que permita justificarmos a perpetuação das práticas egoístas e destrutivas de nossa espécie humana que, pelo jeito, não tem interesse algum em salvar o habitat em que vive.
Voltando mais especificamente o olhar para nós da dobra técnica da coisa: não é de hoje que vivemos em instabilidade.
Quando pensamos neste mote para a edição, provocadxs pelo tocante texto de Thiago Lima, não imaginávamos que considerável parte das contribuições que recebêssemos fosse de poemas.
Mas faz todo o sentido.
Poemas são gritos gráficos que procuram pendurar sentido em varas de nexo que precisamos supor existir. Talvez toda arte seja isso, no fundo.
Sem mais delongas, desejamos a todes, todas e todos uma boa leitura desta segunda edição3 da Revista LABCENAS.
Viemos cheixs de poema: alguns em corpo de poema, mesmo; outros transmorfados em fotografias, colagens, textos analíticos, entrevistas.
Cuidemos de nós.

1 Edital do Natura Musical 2021.
2 ” (…) é preciso continuar, não posso continuar, é preciso continuar, então vou continuar, é preciso dizer palavras, enquanto houver, é preciso dizê-las, até que elas me encontrem, até que elas me digam, estranha pena, estranho pecado, é preciso continuar, talvez já tenha sido feito, talvez já tenham me dito, talvez já tenham me levado até o limiar da minha história, diante da porta que se abre para a minha história, isso me surpreenderia, se ela se abrir, vai ser eu, vai ser o silêncio, ali onde estou, não sei, não saberei nunca, no silêncio não se sabe, é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar.” Beckett, S. Trecho de “O inominável”. Aqui belíssimamente interpretado por Ana Kfouri (recomendamos com veemência assistir ao vídeo todo, ler a peça toda, comer a sobremesa depois do almoço e a fruta com a casca toda).
3 O Centro Brasileiro do ISSN insiste que é “volume”, mas teimamos.

