Tenho sentido uma angústia profunda pelo momento que atravessamos – tanto horror perante os céus (Castro Alves), trabalhado de forma remota, lido bastante, cuidado da casa e das plantas, pedalado sempre que possível, dado atenção aos meus pais idosos e sentido uma saudade infinita de Miró (meu pequeno cão) que nos deixou durante a pandemia.
Cláudia Salomão

Verifique sua respiração e perceba, você está vivx agora, não te falta ar, você pode nos ler e este é o assombro.

O desabafo de Cláudia Salomão nos atravessa de forma especial, quando em meio ao processo de análise dos textos que compõem essa primeira edição, somos duramente tocadxs pela humanidade e intimidade da angústia compartilhada, com seu pedido em vulnerabilidade: não poderíamos iniciar este editorial sem falar sobre o óbvio ululante que é esta pandemia e suas consequências, nem deixá-la no cobre-leito do subentendido. 

A Revista LABCENAS foi gestada, debatida, produzida e lançada enquanto respiramos e conferimos se temos fôlego, enquanto fugimos dos noticiários, abrimos e fechamos o zoom, vemos o comércio abrir e fechar, enquanto engolimos o choro, desviamos de fake news, lamentamos perdas irreparáveis e compramos álcool 70. 

Ao encarar esse contexto complexo, temendo sobretudo pela nossa existência e dxs nossxs, percebemos e acolhemos a dor que sentimos pelo planeta e pelo Brasil, agindo. 

Conectadxs com esse sentir profundamente por tudo o que está acontecendo, o exercício tem sido o de observar que pertencemos a algo muito maior… e ao convocarmos nossa potência, nos colocamos como agentes de mudança e cura do nosso tempo. Entendemos, pois, que nesse trabalho de regeneração e reparação histórica, construir possíveis avessos à realidade torna possível outros assentamentos como formas de vida. O avesso a que nos referimos é a metáfora da perspectiva, nos serve em afirmação ao contexto ao qual nos colocamos em crise, mas em (re)verso.

Ao nos debruçarmos sobre o tema da edição inaugural, entendíamos ali que  o posicionamento seria de um tom-manifesto que pudesse performar e assumir as angústias e agruras vivenciadas dentro do marco histórico de invisibilidades e apagamentos do que chamamos de técnicas das/nas artes. Surgia então nossa reivindicação primeira e ulterior: não existem fronteiras entre o domínio artístico e o domínio das técnicas. Requeremos a construção desse amálgama como dimensões que cocriam, tensionam e costuram o fazer artístico como elementos dependentes e indissociáveis. 

Nesse exercício, a nossa atenção e convite à leitura debruçam-se sob um processo contínuo de maquinações e abertura de espaço às discussões sobre as artes, as vozes e experiências dos profissionais das áreas técnicas. Buscamos atenuar a deficiência histórica, usando como recurso de resistência o acesso à informação, produção e difusão de conhecimentos.

A primeira edição desta revista nasce como parte do projeto LABCENAS, inscrito e contemplado dentro do Prêmio das Artes Jorge Portugal numa categoria que está aninhada em “Teatro”. Talvez por isso a maioria das submissões enviadas para esta primeira edição tenha sido de pessoas que atuam fortemente nesta área. Não podemos, no entanto, deixar de dizer que esta revista se quer longeva, diversa e abrangente. Esperamos que, ao longo de sua trajetória, cada vez mais profissionais de diferentes linguagens artísticas e híbridas sintam-se provocadxs, convidadxs a nos enviar suas contribuições, memórias e crises. 

Durante o processo de curadoria e editoração de uma revista que quer falar de técnica e fazer artístico como elementos indissociáveis, fomos atravessadxs pela perda retumbante de um colega, de um grande entusiasta, ativista, artivista, que tão bem ilustrava e encarnava tudo isso que queremos dizer, ser e multiplicar. Erguemos nossos copos em saudade, agradecimento e reverência ao querido Flávio Oliveiras, Flavão, que foi fortalecer a equipe dos encantados. 

Agradecemos ainda a todxs aquelxs que nos enviaram contribuições em texto, áudio, imagem para além, por causa e a despeito do caos sanitário, das inestimáveis perdas reais e simbólicas de pessoas, tempos, maneiras e espaços. 

Vamos juntxs!