Moisés Victório

São tantas as palavras que caberiam aqui para ilustrar nossa causa, nosso pleito, nossa lida. Críticas, notas, resenhas, crônicas. Nenhuma casta da palavra abarcaria a complexidade, amplidão e diversidade que o trabalho técnico nas artes do espetáculo representa.

Há tanta pluralidade nas áreas artísticas, que chega a ser difícil estabelecer “padrões”, sejam eles estéticos, sociais, étnicos ou de gênero. No entanto, se concentrarmos o olhar na esfera técnica das artes, logo veremos alguns casos e situações se repetirem, de norte a sul, de leste a oeste. As más condições de trabalho, subvalorização profissional, baixos salários, ferramentas e estruturas precarizadas, equipes subdimensionadas, jornadas de trabalho excessivas, ambientes de trabalho insalubres, falta de representatividade trabalhista e a qualificação profissional deficiente, chegam a manter suas prevalências até mesmo nos casos mais adversos.

Ao longo dos dezessete anos de minha trajetória profissional – dos primeiros passos, até este momento – tive o privilégio de embarcar ao lado de diversos grupos, bandas, artistas, companhias, coletivos, rumo aos vinte e seis estados e às vinte e sete capitais brasileiras, além de outras cidades e países diversos, que me revelaram, além de suas belezas, um panorama curioso sobre a lida dos técnicos em espetáculo. Essas experiências me levaram a produzir diagnósticos e impressões, e baseado nisso se dará esta partilha.

É muito comum que o trabalho técnico seja acumulado a outras funções criativas dentro de coletivos, grupos e demais arranjos artísticos. Essa observação aparentemente simplória, nos conta muito mais do que podemos ver na superfície. Mantendo essa questão em vista, quero trazer três caminhos – a necessidade, a precariedade, e o vício à precariedade -, por onde observo origens e densidades do trabalho técnico no campo das artes. Esses caminhos coabitam, dependem e amplificam uns aos outros.

A primeira via que denota o trabalho técnico é a necessidade. Seja pelo desejo ou pela precisão. A vontade de realizar uma ação específica, como acender uma luz, tocar uma música ou fazer chover balões coloridos, requer conhecimentos específicos. Esses conhecimentos, associados a uma sequência de acordos e combinados, podem contribuir dramaticamente para que, por exemplo, um indivíduo e seu poema se tornem uma criança e sua infância, ou mesmo, a formiga e a cigarra.

NE por Terse
NE por Marina

Não por acaso, é na esfera técnica que o criativo busca suporte para que seus anseios tomem forma e vida, beleza e robustez. Pois é ela, a necessidade, quem atua na magia, gerando espaços oportunos onde o urgente, o inventivo e o técnico, caminham de mãos dadas para elevação da experiência sensível que se dá na recepção da obra cênica, da experiência artística.

Como abandonar o vício da precariedade? E a própria precariedade, já que não podemos nos livrar da principal via, a necessidade?

Moisés Victório

A segunda via que denota o trabalho técnico é a precariedade. A falta de recursos, informações e outras variáveis, contribuem para o amadurecimento deficiente de artistas e técnicos.

Sobre recursos

Quanto mais autônomo, independente e autodidata for o processo, mais distante estará dos “padrões” de “mercado” que habitam os grandes palcos. Neste ponto, em geral, ações que determinam o trabalho técnico, são também ações comuns ao dia a dia de muitas pessoas. Trocar uma lâmpada ou um interruptor, organizar e tocar uma playlist musical, fazer um furo na parede, utilizar uma chave inglesa, manusear um computador. Essas ações exigem certa aptidão e engajamento, e é justamente a similaridade desses engajamentos (ou desse perfil, se preferir) que darão ao indivíduo leigo, em relação ao profissional técnico, a ilusão de paridade.

O vício da precariedade é o terceiro ponto. Aqueles que à primeira vista eram indivíduos leigos, agora são amadores, quase profissionais, mal formados e/ou pouco instruídos. A falta de escolas, oficinas, ateliês e outros espaços de aprimoramento e apreensão das tecnologias do espetáculo, são um fator determinante para a má formação profissional desses trabalhadores. Nas regiões norte e nordeste, as opções de formação continuada são quase nulas. Para além dos fatores artísticos e criativos, o trabalho técnico envolve riscos. A falta de conhecimentos basilares em áreas correlatas como elétrica, acústica, marcenaria, segurança do trabalho e outras, pode custar (como já custou) um alto preço à saúde,  integridade e bem estar de muitos trabalhadores, em diversas produções. Nesse ponto, a necessidade – fator indecomponível do processo artístico – estará atrelada a precariedade. E o relativo sucesso obtido nas primeiras ações, ainda que em situações bastante adversas, nutrirá os impulsos para uma próxima atuação. Criando um ciclo recorrente entre necessidade e precariedade.

Como abandonar o vício da precariedade? E a própria precariedade, já que não podemos nos livrar da principal via, a necessidade? A resposta a essas perguntas não é simples. Se tratando do Brasil, um país com imensa disparidade social, estaríamos falando de um amplo movimento de reeducação e construção de novos valores e entendimentos da condição de artista. Um fenômeno nacional, uníssono, de aparência utópica, que ressignificaria a importância de nossas contribuições à sociedade perante o senso comum. O que poderia, em tese, mitigar ou prevenir os processos de precarização da prática artística. Coisa rara! Prefiro me ater às pequenas porções de mundo, onde cada um de nós pode e deve contribuir para uma melhor formação daqueles que temos visto chegar.

Se não há escolas, sejamos as escolas. Podemos hoje, contribuir para que a classe de trabalhadores da área técnica de espetáculos seja protagonista de sua própria história, e que seus profissionais sejam os griots dessa ciranda. Em um campo do conhecimento no qual as profissões se desenvolvem pela prática, pela tentativa e erro que cada porta aberta propicia, me parece justo criarmos circuitos para discussões, que nos levem a compreensão de quem somos, onde estamos e nos permita vislumbrar o longo caminho que temos pela frente.

Há inúmeros pleitos para serem tratados e debatidos sobre o trabalho técnico. A má remuneração sistêmica; a masculinização das funções em detrimento de aberturas que incluam e garantam o direito ao trabalho a tudo que não é cis e macho; o factível enegrescimento das funções mais “rasas”, que absorvem os trabalhos braçais dessa classe e a perpetuação dessa segregação que transborda as barreiras sociais e intelectuais; além de muitos outros aspectos que não caberão nessa troca inicial, mas que de certo, não deverão fugir à luz da verdade, da história e de nossos olhos. Sigamos!

Imagem: Maria Martinelli e Cézar Júnior – montagem sobre fotos de acervo
Foto: Caio Lírio – Espetáculo “Vermelho Melodrama”

Moisés Victório é um homem negro, artista, pai de uma adolescente, adepto às filosofias etno-religiosas de matriz africana. É iluminador cênico, gestor, músico, agitador, reside e atua, sobretudo, em Salvador. Anda interessado em minhocas e plantas frutíferas, curioso sobre astronomia, fontes de luz e está passando a quarentena com sua família, suas plantas e seu violão.

vol. 1, no. 1 – 2021

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