Caju Cultura

Enquanto mulheres trabalhadoras da cultura, atuando principalmente nas áreas da gestão e produção cultural, o tema desta convocatória nos atravessa de diferentes formas. Somos o AVESSO, por vezes em papéis invisíveis, por trás dos holofotes, por dentro da engrenagem. Fazemos parte das áreas sub-representadas na produção e difusão do conhecimento nas artes e na cultura. Encaramos este chamamento como um convite a estilhaçarmos o bloco sólido da linguagem acadêmica e a rigidez de seus espaços de circulação, para irmos além, para dentro, nas profundezas das vísceras e para fora, na busca pela inteireza.

Primeiro, façamos nossa apresentação: nascemos em 2017 como um coletivo feminista de cinco mulheres que trabalham com arte e cultura no interior do estado de São Paulo, em Campinas. Somos o coletivo Caju Cultura. Atuamos com gestão e produção de grupos de diferentes linguagens artísticas, com criação e execução de projetos e com produção de conhecimento na área da gestão cultural. Trata-se de uma experiência que se constrói com o olhar para o interior, ainda que do estado mais rico do Brasil.

Cada uma de nós traz um acúmulo de experiências bastante diversas. Além da formação em artes cênicas, no teatro de grupo, temos ainda uma psicóloga e uma engenheira que dançam, cantam e escrevem. Estamos entre a academia e o saber que se faz na prática e nos encontros, passando pela militância política, estudos de permacultura e agrofloresta, o gosto por chás e infusões e pelas trocas de receitas, acolhimento e afeto.

Nosso encontro se deu a partir do desejo de compartilhar experiências e perrengues, enfrentar opressões, refletir sobre o nosso trabalho e definir fronteiras que nos protejam nas relações profissionais. Descobrir juntas uma forma diferente de trabalhar com cultura. Foi um movimento para sermos menos solitárias e aumentar o volume da nossa voz.

Buscamos uma maneira de trabalhar que nos inclui por completo, sem deixar de lado nenhum pedaço. Os afetos e emoções, as vivências pessoais, os conflitos inerentes ao ato de estar viva. Se por um lado estes elementos são um estorvo à ordem patriarcal e capitalista, pra gente eles não apenas têm espaço para existirem, como são legitimados e transformados. Antes, pontos fracos. Agora, potências que melhoram a qualidade de nossa atuação profissional. Abrimos portas e janelas para o afeto fluir em nossas reuniões, nos trabalhos com os grupos, em nossas parcerias. Esta é a nossa força!

Encontramos três palavras-imagens inspiradoras que representam a forma como temos trabalhado e existido: ESTÔMAGO, PUNHO e CORAÇÃO.

Caju Cultura

Hoje, depois de quase 4 anos, celebramos a nossa caminhada com o projeto Crie como quem Luta, contemplado pela Lei Aldir Blanc, idealizado e realizado pelo coletivo, em parceria com mulheres de diversas áreas da arte e cultura. Desta vez, ao invés de viabilizar sonhos de outras pessoas com quem trabalhamos, olhamos para os nossos próprios desejos e reflexões, para colocar pra fora o que consideramos pertinente, mostrar as nossas demandas. A produção aqui ocupa um outro lugar: a que propõe. A produção como criação, que concebe.

São 17 mulheres reunidas para criarem juntas as diversas ações do projeto: residências artísticas, websérie de video-performances e debate sobre a mulher trabalhadora da cultura. Na semente da ideia está a busca por formas de nos alimentarmos de vida, para seguirmos em um momento tão difícil de respirar. Juntas, nos alimentamos. Compartilhamos receitas e memórias afetivas. Diversas, gritamos ao mundo que todo trabalho pode e deve ser criativo.

Para além do resultado artístico final, destacamos a potência de criação presente na gestão cultural que articula idéias e ações; no registro audiovisual que pode realizar uma captação e edição de imagens com sensibilidade; na narrativa contida no release realizado pela assessora de imprensa; nas soluções encontradas pela contadora para facilitar a execução financeira e, portanto, os processos; nas postagens nas redes sociais que buscam atiçar a curiosidade do público; na técnica exigida nas adaptações necessárias para realizar eventos 100% online durante uma pandemia. Todas nós fazemos a arte tomar corpo e existir.

Imersas no processo do Crie como quem Luta, encontramos três palavras-imagens inspiradoras que representam a forma como temos trabalhado e existido: ESTÔMAGO, PUNHO e CORAÇÃO.

O ESTÔMAGO integra as partes viscerais do nosso corpo. Recebe o alimento e passa pra frente (ou põe pra fora). Digere bem aquilo que nutre e digere mal aquilo que foi mastigado com pressa ou preparado sem esmero. Tem ligação direta com o mundo das emoções. Quando bem alimentado, nos traz a sensação de aconchego, satisfação, calor. Quando vazio, sofremos um desconforto que nos impede até de pensar direito. Em caso de muita raiva chega a doer. Nos faz lembrar que não temos como fingir que as emoções não existem. Elas precisam ser degustadas, engolidas e bem digeridas para serem aproveitadas como alimento. Vida com emoção. Visceral.

O PUNHO, visto exclusivamente como parte do mundo masculino por séculos, é reconhecido como nosso há poucas décadas. É símbolo feminista, de luta e de força. Angélica Freitas nos lembra com o título de seu belo livro de poemas que “um útero é do tamanho de um punho”. Podemos brigar, podemos lutar, podemos perder a paciência e a ternura. E se um punho sozinho concentra uma força considerável, imagina muitos punhos juntos. Mãos dadas ou fechadas. Não abrir mão do que é importante pra gente. Impomos limites, com o punho fechado, se for preciso.

O CORAÇÃO, músculo em constante movimento, que bate involuntariamente desde o dia zero até o último. Atribuímos a ele uma enxurrada de emoções e sentimentos, como o amor, a paixão, a excitação, o medo, a surpresa. Termômetro-supremo da vida e da morte. Ternura e afeto, acolhimento e poesia. Inspiração. Amar o que se faz e o que se acredita. Fazer o que ama.

Eis aqui uma mostra do que tem nos alimentado: encontros entre mulheres que potencializam a concepção de formas feministas de atuação através de redes colaborativas e acolhedoras que propõem relações mais humanas, integradas e saudáveis. Uma rede de mulheres que cria com o estômago, punho e coração.

Com amor,

Julia Conterno e Ju Kaneto 
Coletivo Caju Cultura

Caju Cultura é um coletivo feminista, criado em 2017 por 5 mulheres trabalhadoras da cultura em Campinas, com o intuito de viabilizar experiências artísticas que provocam o mundo, aliando prática e reflexão crítica sobre nossa atuação na área da cultura. Nos juntamos guiadas pelo desejo de trabalhar apenas entre mulheres e fortalecer modos mais colaborativos, afetuosos e criativos de trabalho. E neste processo, entendemos e transformamos as formas de fazer arte e ampliamos as possibilidades relacionais, buscando continuamente subverter as lógicas de criação, de negociação e de produção do patriarcado.

vol. 1, no. 1 – 2021

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