Nando Zâmbia

Entrevista concedida em 10/02/2020 para a pesquisa de doutoramento da diretora, dramaturga e pesquisadora Onisajé (Fernanda Júlia).

Onisajé – O que configura a iluminação no Teatro Negro?

Nando Zâmbia – Eu começo a fazer iluminação já dentro desse ambiente. A minha prática vem toda dentro deste universo do Teatro Negro. Começo a iluminar dentro do NATA¹ em 2009. Só que a minha escola para a iluminação não foi a Escola de Teatro da UFBA, mas sim o Teatro Vila Velha. Começo um estágio lá com Rivaldo Rio, que na época era o coordenador técnico do teatro. Quando a gente começa a nossa prática, a gente nunca pensa sobre. A gente vai fazendo, até que a nossa arte nos faz perguntas e aí nós embarcamos em busca das possíveis respostas. Quando eu li o livro O Teatro do Bando, Negro, Baiano e Popular de autoria de Marcos Uzel, lá o Bando² falava de estar em cena com seus corpos negros, mas vestidos com outras roupas, roupas que não eram a estereotipia, mas com roupas afirmativas, complexas, belas, poderosas. Esse “vestir novas roupas” nunca saiu da minha cabeça e passou a guiar o meu pensamento de iluminador. De modo que para mim a iluminação no Teatro Negro é a vestimenta dos corpos negros na cena contemporânea. É criação de complexidades, impulso para a ampliação das narrativas, plasmação da subjetividade negra, é o meu discurso para colaborar com o espetáculo.  

Onisajé – Como é tratada a luz dentro do Teatro Negro?

Nando Zâmbia –  De saída é importante sabermos que iluminar o corpo branco e o corpo preto é diferente. Luiz Guimarães fez algumas pontuações técnicas acerca da iluminação para o Teatro Negro, ele fala de questões de luminosidade, por exemplo, de uso de refletores. A pele negra absorve luminosidade, portanto é super importante que seja levado em consideração esse fato na gravação das composições; deve-se subir a intensidade da luz, pois corpos negros estarão na cena. Devemos ver qual refletor está com a lâmpada em melhor estado de uso, ou seja, em que grau está a luminosidade do refletor, pois as lâmpadas, com o tempo, vão irradiando menos luz. É importante que exista um pensamento de luz para as peles mais retintas. Uma saída é usar os refletores mais potentes nesses casos. Tudo isso em diálogo com o conceito do espetáculo, porém levando em consideração que corpos negros, para serem melhores iluminados, precisam de mais luminosidade. Por exemplo em Exu – A boca do universo³, a minha escolha de utilizar refletores mais agressivos vem dessa necessidade de iluminar os atores mais retintos, para isso utilizei o PAR 64 que é um estouro de luz. 

Pensando conceitualmente sobre a iluminação no Teatro Negro é importante dizer que sou de Candomblé, nasci dentro do Terreiro e a iluminação para mim passa pela exuberância do Candomblé. O meu imaginário está repleto de imagens, narrativas de itans, orikis. Imagens dos orixás dançando, da multiplicidade de cores, cheiros, texturas, muita exuberância. Então quando penso na luz, eu penso na exuberância que a iluminação pode trazer para a cena. Nunca se sobrepondo à cena, mas pintando aquela tela com cores e imagens que eu vejo desde criança. Meu universo de narrativa como iluminador negro e de Teatro Negro, perpassa também pelo que eu vi e vivi no Candomblé desde sempre. Embora os barracões dos terreiros não tenham iluminação cênica, a minha cabeça de iluminador sempre ficou imaginando como revelar, intensificar e potencializar as vestimentas das divindades, ou a beleza das decorações colocadas nos barracões em reverência aos orixás. Os barracões dos terreiros talvez tenham sido a primeira cenografia que procurei formas de iluminar, mesmo que mentalmente. Nesses espaços sempre tem plantas, flores, tecidos, cadeiras ornadas e/ou esculpidas, decorações no chão. Minha mãe me levava sempre horas antes da cerimônia e então eu ficava observando o pôr do sol banhar o terreiro, o barracão, as plantas e animais do espaço, o céu azul em complemento ao verde das plantas, ou as diversas cores do chão. Dessa forma a iluminação surge em minha cabeça como a revelação do mundo mágico e colorido das cerimônias de axé.

Onisajé – Eu percebo que a luz no Teatro Negro em sua maioria é sempre uma luz sensorial, que intensifica as atmosferas e as sensações dos espetáculos. Uma luz sinestésica que toca, veste e reveste a cenografia. Uma luz texto. É um espaço de iluminação/revelação das peles retintas e também uma plasmadora visual, que plasma a exuberância dos elementos da cultura negra. É uma luz que acompanha a energia da personagem, ela é feita para lidar com as dimensões materiais e imateriais da cena. Concorda com isso? 

Nando Zâmbia – Sim, plenamente! Você não pode ter uma criança que ia sempre para cerimônias de Candomblé, aos shows de pagode e não ser influenciada por essas imagens. Era muita informação, muitas cores, muitos mundos, a nossa vida negra –  ela é plural! E fiquei pensando aqui: eu posso estar fazendo uma luz de show para teatro por causa dessa exuberância, mas eu fiz a luz de Medeia Negra⁴, e minha atuação foi simplesmente acompanhar a energia daquela mulher e daquela personagem, até o momento do eclipse das duas – a união atuante e personagem da junção de suas forças na cena. Mas é um eclipse de potência, de fusão. E não de alguém cobrindo alguém. E foi uma luz sem nenhuma cor, por exemplo, mas também muito potente. Então é importante pensar que existem códigos, existem energias, universos semânticos que a gente atua com a iluminação que o teatro que você [Onisajé] faz afirma no desbunde, na profusão de cores. E tem o teatro negro feito com uma atriz negra, que foi a luz mais econômica que eu já fiz na vida, mas que tem como objetivo mostrar a respiração daquela mulher, a sua energia, sua dor. Em Medéia [Negra] está em cena Márcia Limma, uma mulher preta retinta, com um figurino escuro. A luz foi feita majoritariamente com PAR 64, foi uma escolha levar essa mulher a ser vista nos seus mínimos detalhes, do suor em suas costas até suas linhas de expressão. 

Onisajé –  Qual a função da iluminação dentro do Teatro Preto de Candomblé? 

Nando Zâmbia –  Se pensarmos globalmente, a função da iluminação vai passar por aquilo que Roubine e alguns autores falam, de que a luz serve para revelar, esconder. A função básica da iluminação é essa. Na função básica da iluminação não tem diferença entre um teatro preto e um teatro branco. A questão no pensamento da iluminação para um iluminador negro é que, me conectando às minhas origens, eu vou dar bastante atenção ao que eu quero revelar. Então é estar atento e sensível ao que do universo negro a gente quer pontuar. No teatro que você faz, nós temos a questão da exuberância do pensamento do povo preto, da sua resistência. Minha função é compreender o que eu pontuo, como eu pontuo e em que momento devo pontuar. Em Pele Negra⁵, por exemplo, eu busquei a subjetividade negra e o quanto a gente precisa individualizar essa subjetividade. O grupal é importante, porém o tempo todo a pessoa negra é um aglomerado, e a pessoa branca é um indivíduo. Então, na iluminação deste espetáculo, escolhi como mote norteador a individuação, a exaltação à subjetividade da pessoa negra. 

Em Oxum⁶ eu escolhi evidenciar esse universo mítico das divindades africanas, criando um contraste com o figurino mítico-contemporâneo das atrizes e evidenciando o dourado de Oxum, plasmados em seus corcelês. O foco era Oxum, a ideia foi evidenciar sua grandiosidade, feminilidade múltipla e a divinidade da mulher negra. As diversas Oxuns estavam individualizadas e os homens massificados. Uma inversão necessária e política, uma vez que os homens são individualizados e as mulheres agrupadas. Por isso a utilização dos gôbos espiralados e da pontuação da presença de Oxum por meio da cor. Só as Oxuns recebiam cor. 

Então eu posso dizer que a luz no Teatro Preto de Candomblé é uma lírica, que visa buscar o eu lírico das personagens, efetivamente uma luz poética. É uma luz dimensional, pois evidencia a existência dos planos dos humanos e o das divindades, o Aiyê e o Órun. É uma luz espiritual, pois o Teatro Negro pensa muito a luz também como espaço de espiritualidade, de reconexão com o divino. Uma luz que revela uma espiritualidade que muitas vezes está dentro das pessoas, uma iluminação que propõe a confessionalidade, a narratividade, a oralidade dos atuantes e das personagens. Busco acessar a ancestralidade negra por meio da iluminação. 

E, por fim, é uma luz cenográfica. Ela ocupa, em determinados momentos, papel de cenografia, ao construir espaços efetivamente. Em Pele Negra isso fica evidente com a criação do plano da ancestralidade, que é todo construído pela luz, sem nenhum suporte cenográfico. 

Onisajé –  Qual a importância da iluminação no Teatro Negro? Que narrativas ela evidencia?

Nando Zâmbia – É uma soma de tudo que a gente falou aqui: a exuberância, a complexidade, a importância técnica, a importância conceitual. Não dá mais para a gente entrar em cena sem saber exatamente o que estamos falando. A iluminação passa por isso também. A mulher e o homem negros estão cheios de estereótipos que foram construídos ao longo de vários anos. Esta estereotipização foi intensificada pela mídia, seja ela teatral, televisiva, cinematográfica ou jornalística. Eu acredito que, como a arte contribuiu para essa estereotipação, ela deve contribuir para o combate e a superação da mesma. Dessa forma, a luz tem o dever de pontuar outras características, outras situações e outras histórias de nós pretas e pretos. Para além de revelar e/ou esconder, a iluminação no Teatro Negro deve se perguntar qual roupa se quer vestir nossos corpo pretos. Sim, pois é uma luz que veste e reveste. A luz pinta sentimentos para que sejamos potentes, grandes. É função da arte reconfigurar esse lugar de entendimento, uma vez que num espetáculo de Teatro Negro nunca temos uma abordagem única sobre o negro, mas sim temos uma encruzilhada de percepções e abordagens.

Onisajé –  Como a iluminação fortaleceu o Teatro Preto de Candomblé realizado por Onisajé? Como a contribuição da sua arte amalgamou-se à minha?

Nando Zâmbia – A gente tem um povo preto que criou coisas maravilhosas na década de 50, 60, 70 do século XX, que são as discotecas. Quando esse povo preto entra nas casas de show com seus blues, jazz, samba-rock… com seu disco… A gente vê luz, muita luz. A gente tem luz numa bola de espelho, a gente explode aquilo ali, a gente dança, a gente é luz. Aí no final da década de 90 eu começo a fazer teatro, mas estou contaminado por esse universo que eu vejo na televisão, no cinema. No Teatro Preto de Candomblé de Onisajé, a luz vai contribuir para dar a mesma dimensão que a luz deu à discoteca, aos espaços pretos das décadas de 50, 60, 70. Pois quando você fecha o olho e pensa em discoteca, você pensa na luz. O nosso século é desenhado pela luz. Tem cento e poucos anos da criação da lâmpada, ou seja, que nós conseguimos automatizar a chama. Então, já que a gente consegue controlar/automatizar a chama, conseguimos reduzi-la e ampliá-la. Acho que a iluminação veio para acentuar a espetacularidade do que o discurso das suas encenações fala. Acho que poderíamos até ser um vilarejo, uma cidade pequena… mas a iluminação auxilia a sentirmos e a vermos uma metrópole. A iluminação atualiza e contemporaniza o discurso, além de expandir suas camadas e dimensões. É uma iluminação que explode a relação palco-platéia. Ela por isso é inclusiva, pode se dizer também interativa, uma vez que coloca os espectadores na cena, provocando e revelando sensações e sentimentos, além de ser ritualística e espiritualizada. 

Onisajé – Em quais espetáculos dirigidos por Onisajé o diálogo entre Candomblé e Teatro efetivaram-se na constituição da iluminação? Por  quê?

Nando Zâmbia – O Siré Obá⁷ , eu acho que a relação com luz neste diálogo de Candomblé e Teatro chega quase a ser literal. Ele quase que recria o universo mítico dos Orixás, pelo uso das cores de cada divindade. Exu é a sofisticação do que em Siré foi quase literal. Essa literalidade de Siré não é uma crítica, não. A ritualidade do Candomblé é muito presente nessa montagem. No caso de Exu, nos abrimos para cruzarmos, no caso da luz, a referência mítica da cerimônia do Candomblé com referências contemporâneas de iluminação – como o show, o videoclipe, festa de largo. Por exemplo, eu utilizei o vermelho e suas variações no espetáculo todo, elegi o vermelho de Exu, o sangue ritual, o vermelho do desejo, da fome de existir, do dendê e aliei a essas referências contemporâneas que me referi. Oxum eu acho que é um exemplo também, pois propus a recriação do rio e da exaltação das diversas características dessa Orixá. A sensação de estar molhado por esse rio que é luz.  

Onisajé – Tem alguma coisa que você queira complementar sobre iluminação em Teatro Negro? 

Nando Zâmbia – Assim como a gente não nasce negro, mas se descobre negro no Brasil,  a gente começa querendo ser artista, a gente quer falar de tudo, se sente fazendo parte de tudo… Mas é muito importante, quando a gente se descobre um artista negro, para fazermos as nossas narrativas. Mas demarcar nosso espaço de pessoas negras é uma construção. Eu acho que para o Teatro Negro a gente tem que começar a perceber  que nós temos, apenas com a nossa vivência, suporte para pontuarmos a nossa existência, criar o nosso espaço e fortalecê-lo. Essa sensibilização para o que somos e para o que vemos tem muito a ver com essa onda negra de arte, que vem se demarcando, se reinventando, se reescrevendo. Estamos dando continuidade. É muito bom ser um iluminador negro e ter orgulho e consciência disso, e saber o que eu quero pautar e pontuar por meio da iluminação dentro dessas produções que eu participo; que, para além de tudo, é terapêutico. Eu estou pontuando o que eu quero que seja pontuado. Eu não estou sendo pontuado, estou pontuando. E aí é um dever meu entender que é uma complexidade a nossa criação, que não é fácil. Afinal, somos dados como o povo a sumir do mapa, e você constrói arte, cultura… Então é a nossa função tirar a roupa colonial de saco, tirar a violência, o estupro e trazer mais realidade, porque na realidade nós somos muito mais do que tudo isso que pontuam sobre a gente. E aí é função da iluminação fazer sumir os discursos perversos sobre nós e evidenciar as falas, narrativas afirmativas. Isso vai desde as parcerias… quais as pessoas que você se junta, quais são os discursos que você apoia. É uma nidificação de discursos. Então nós precisamos, sim, dar uma enxurrada de novas perspectivas no mundo, para que minimamente deixemos plasmadas no mundo outras pontuações sobre nós. Mais luzes sobre nós, mais luz para o que precisa de luz. Já iluminaram demais o que não presta, que foi criado sobre a gente. A iluminação no Teatro Negro é muito importante porque ela é uma outra boca. Nem todo encenador branco ou preto tem consciência disso. A iluminação que eu faço releva, veste, fala, conecta, pontua e espiritualiza a cena teatral preta.   

¹ Núcleo Afro-brasileiro de Teatro de Alagoinhas
² Bando de Teatro Olodum
³ Espetáculo resultado do Edital de Ocupação TCA.NÚCLEO, do Teatro Castro Alves (TCA), em 2013. Indicado ao Prêmio Braskem 2014 nas categorias: Melhor Espetáculo, Direção (Fernanda Júlia – Onisajé) e Melhor Figurino, Maquiagem e Cenário (Thiago Romero).
⁴ Espetáculo solo da atriz Marcia Lima (2018).
⁵ “Pele Negra, Máscaras Brancas”. Montagem de 2018, da Companhia de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), baseada na obra homônima de Frantz Fanon. O espetáculo foi indicado ao Prêmio Braskem 2020 nas categorias: Espetáculo Adulto, Direção (Fernanda Júlia – Onisajé) e Revelação (atriz Matheuzza).
⁶ “Oxum”. Grupo NATA, finalização da Manutenção de Grupo do Edital Setorial 2016, SECULT/BA. Montagem indicada ao Prêmio Braskem de Teatro 2018 nas categoria: Melhor Espetáculo Adulto, Melhor Direção (Fernanda Júlia – Onisajé e Zebrinha) e Melhor Figurino, Cenário e Maquiagem (Thiago Romero).
⁷ “Sirê Obá – A Festa do Rei”. Montagem contemplada com o Edital de Montagem Manoel Lopes Pontes, em 2009. Espetáculo indicado ao Prêmio Braskem de Teatro 2009 nas categorias: Melhor Espetáculo, Revelação (Direção: Fernanda Júlia e Melhor Trilha – vencendo nessa categoria com o diretor musical Jarbas Bitencourt).                                

Obras em diálogo: Fotografias de Caio Lírio – Espetáculo “Medéia Negra”

Nando Zâmbia é homem cis, negro, ator e iluminador. Natural de São Paulo (SP), reside e atua principalmente em Alagoinhas (BA). Iniciou sua carreira no interior do Estado da Bahia, em Alagoinhas, no ano de 1999, em âmbito estudantil no Centro Integrado Luiz  Navarro de Brito. Esse foi seu reduto escolar e artístico por dois anos e, logo após a conclusão do ensino médio, ingressou no NATA – Núcleo Afro-brasileiro de Teatro de Alagoinhas, no qual desenvolve suas pesquisas como ator e iluminador. É ator formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), no Brasil, e pela Universidade de Évora (UÉ), em Portugal.

vol. 1, no. 1 – 2021

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