Ramona Azevedo

Nessa minha jornada no mundo da cena, sempre entro em um estado de questionamento interno quando escuto o termo caracterização, principalmente quando associado apenas a maquiagem espetacular. Em teatro, e nas artes do espetáculo em suas múltiplas versões, caracterizar é relativo à maquiagem, mas também a indumentária e adereços. E para além da linguagem técnica, caracterizar, como já nos dizia o velho (porém sempre polêmico e atual) Aristóteles, é atribuir qualidade/caráter/característica a uma personagem.

Para mim, como atriz/figurinista/maquiadora, caracterizar é um ofício de encantamento, mais próximo da magia, da alquimia e do sonho do que se possa supor à primeira vista. Criamos em conjunto a aparência de seres que nascem para a cena e nela se configuram como existência, como vida, com sua própria lógica e verdade. Seres que são poesia em forma de imagem, e que carregam em si uma linguagem visual silenciosa e plena de significados, recheada de lirismos, figuras de linguagem e licença poética que não ficam em débito com nenhum soneto rebuscado ou mesmo um verso dissonante.

Este trabalho laborioso e em conjunto nasce na imaginação de quem cria uma cena, seja ela escrita ou não, e desde lá, começa a moldar a forma que estes seres terão no palco. Aos poucos a silhueta vai adquirindo contornos no trabalho de atrizes e atores que emprestam seus gestos, voz, corpo e alma, sangue e suor, para que estes seres possam existir. E nós, figurinistas, maquiadores, iluminadores, cenógrafos, costureiras, artesãos e técnicos, complementamos com o acabamento necessário para torná-los inteiros em cena, em seus mínimos detalhes. No palco, na cena, tudo tem uma razão de ser e significados ou, ao menos, deveria. No palco, a forma do artista dá lugar ao corpo vivo da personagem, que não se limita a forma humana comum ou ao cotidiano, ela vai além se assim desejarmos. Pernas enormes, olhos profundos, cabelos coloridos, animais que falam. As possibilidades são quase infinitas.

Para mim, como atriz/figurinista/maquiadora, caracterizar é um ofício de encantamento, mais próximo da magia, da alquimia e do sonho do que se possa supor à primeira vista.

Ramona Azevedo

Peço que perdoem o apaixonado das palavras.  A labuta técnica é árdua, não se enganem! Muitas mentes criativas pensando juntas, muitas mãos hábeis colorindo, iluminando, sonorizando, pintando, cortando, colando, costurando, bordando, transformando os mais diversos materiais – fios, tecidos, papéis, tintas, cosméticos, fitas, miçangas, glitter, aparelhos e bugigangas de todos os tipos – nas mais inusitadas e inesquecíveis imagens em movimento, eternizadas no instante da cena. E o que seria da cena sem essas mentes e essas mãos?

Recordo-me de um trabalho em especial que sempre me leva a refletir sobre esse reinventar.  No espetáculo Torre de Babel, texto do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal montado e dirigido por Marcelle Pamonet, em 2010, nós tínhamos poucos recursos, muitas ideias e uma equipe incrível. Conseguimos doações de enormes lençóis e cortinas, juntamos com algumas roupas doadas e emprestadas, alguns poucos tecidos novos, muitas bugigangas e uma dose de ousadia. Dessa mistura confeccionamos figurinos de nobres, pobres, figuras históricas e personagens que se transformavam em outros ao longo do espetáculo. Durante a confecção, muitos tecidos tingidos, propositalmente queimados e desgastados, muitos retalhos emendados, detalhes e acabamentos todos feitos a mão. Rodrigo Frota, cenógrafo e diretor de arte do espetáculo, foi quem deu o toque final ao sugerir acrescentar aos figurinos detalhes de acabamento da cenografia, abrindo naquele momento o meu olhar para outras possibilidades de significado e para o necessário equilíbrio entre os elementos visuais da cena.

É esse aprendizado a cada novo projeto o que me encanta. É compreender um pouco mais a cada dia a relevância do trabalho de todos os envolvidos na construção da cena. Pois é uma arte construída no coletivo, ainda que seja apenas na relação entre o artista em cena e uma única pessoa que o observe. É acreditar que, mesmo sem a participação de nenhum profissional específico, não há cena sem cenografia, caracterização, iluminação, sonoplastia. Um artista na rua tem a própria rua como cenário, tem a luz e o som do ambiente que se tornam parte da cena, tem a sua própria aparência como caracterização.  E sem questionar a falta ou o excesso, estaremos lá, todos, fazendo a cena acontecer. 

A mágica está em deixar a imaginação ver além. Para mim, caracterizar tem a beleza das brincadeiras infantis em que uma toalha ou lençol pode virar uma capa e em questão de segundos teremos um super herói a correr pela sala. Tem o prazer da descoberta e do novo, ou do reinventado, quer seja ao usarmos algo inusitado para maquiar ou confeccionar figurinos e adereços, quer seja ao nos reinventarmos a cada nova personagem. E não se trata de criar algo mirabolante, mas simples como a toalha/capa de super herói.

Caracterizar para mim tem a mesma singeleza e liberdade da poesia, que tanto fere quanto afaga e que não é obrigada a nada, pois reinventa a si mesma cada vez que alguém a faz nascer de novo a cada novo verso. E no fim das contas, ainda nessa jornada em curso, o que me cala e me inquieta, o que me ampara e me faz querer continuar é redescobrir sempre nesse ofício de caracterizar a minha pequena poesia de transformação.

Fotos: Ramona Azevedo – bastidores do espetáculo “Torre de Babel”

Ramona Azevedo é uma mulher apaixonada pela vida e pelo que faz, que escreve alguns versos quando o coração pede, é mãe de um menininho cheio de imaginação, é alguém que acredita em tudo que é mágico, encantado e inexplicável. Atriz de formação, figurinista e maquiadora, atua nas artes cênicas e em áreas afins há mais de dez anos em Salvador e em algumas cidades do interior do estado. Reside hoje em Planalto, Bahia, onde está começando uma vida nova com seu filho, ao lado da família, com seus recém adotados gatinhos, suas plantas, seus livros de poesia e bugigangas, sempre mantendo a esperança em dias melhores.

vol. 1, no. 1 – 2021

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