Caio Lírio

A coxia sempre foi um dos lugares mais acolhedores das minhas lembranças dentro de um  teatro, seja como ator e principalmente depois, quando a fotografia virou profissão e carreguei a paixão pelas imagens para dentro do espaço cênico.

Coxia é sinônimo de movimentação, a interseção entre aquilo que é mostrado e todo maquinário que sustenta o fazer teatral, seja em seus elementos físicos ou humanos. É o lugar da espera, da atenção e da paciência. Muitas vezes é da coxia que a câmera tem uma visão melhor de determinadas ações. É uma quarta parede sem ser, não só porque o fotógrafo de palco precisa se fazer invisível na maioria das circunstâncias para realizar plenamente seu ofício, mas porque ao mesmo tempo a coxia o coloca na cena, coloca a lente e seu olhar diante de um enquadramento que só quem fotografa teatro entende no momento. Te torna também um encenador de ideias, atos, um contador de novas histórias, faz você parte da caixa mágica onde seu trabalho cresce. Ou seja, no fim das contas, de alguma forma, você também é elemento do espetáculo, e não meramente um fotógrafo espectador. 

Desde o início da minha formação cultural e artística eu vejo o ambiente teatral como uma potência a ser explorada e isso inclui sua estrutura física e detalhes não visíveis. Mais do que me encantar por tudo que ocorre dentro do espaço cênico, seja ela em palco convencional ou mesmo na rua, minha vontade de entender o funcionamento daquilo extrapolou todos os elementos que minha visão alcançava. O trabalho do fotógrafo de cena se dá, antes de tudo, atrás do palco. Dos ensaios e produção ao trabalho de montagem do cenário e reconhecimento das marcações, passando pela relação próxima com atores, diretores, produtores e técnicos, é possível ver como a magia acontece nos seus detalhes e isso me ajudou muito na compreensão do trabalho de registrar através das lentes um quadro que carrega uma penca de significados para além do que é visto no momento em que o terceiro sinal cessa e as cortinas se abrem.

O trabalho do fotógrafo de cena se dá, antes de tudo, atrás do palco.

Caio Lírio

Nesse contexto criar imagens perpassa por conceitos que vão desde o de fotografia de autor, cunhado por Henri Cartier-Bresson (1908–2004), o qual diz que o resultado da fotografia está na subjetividade e no olhar do fotógrafo, e não necessariamente no aparato tecnológico, até o estudo minucioso do gesto, do movimento, ou até mesmo da interrupção do fluxo da ação dramática e da aparente inação de artistas em cena, como bem analisado por Walter Benjamin sobre o teatro épico de Brecht, e por outros estudiosos, por meio de registros fotográficos feito por colaboradores do encenador alemão, como àqueles criados pela fotógrafa, atriz e diretora Ruth Berlau, por exemplo. “O teatro épico é gestual […] e a aplicação adequada desse material é sua tarefa.” analisa Benjamin, que coloca a amplificação e espaçamento gestual de atrizes e atores como o cerne da verdade trazida pelo teatro brechtiano. Nesse sentido, é a partir disso que o trabalho do fotógrafo é muitas vezes, se não imprescindível, elemento importante para o registro, estudo e construção da arte dramática, do movimento e da postura em cena. Em muitos casos, se faz necessário tornar o retratista parte integrante do processo de construção do espetáculo, na elaboração não só da imagem teatral, mas do processo de feitura da peça e de uma identidade visual daquilo que se quer mostrar. 

A fotografia de teatro, mais que um registro documental a título de arquivo histórico da cena, é um potente elemento de interlocução com o espectador, que muitas vezes cria uma leitura específica para além do que foi visto (ou não) no momento em que aconteceu. Traduz e estende de significado o que até a criação do aparato de captura de imagem no final do século XIX só podia ser contemplado através da memória individual, coletiva ou do que era relatado em notas e críticas da imprensa. Conhecer os segredos, ferramentas e elementos por trás do palco é importante para trazer novas nuances, emoções e intenções à imagem. É uma forma de trazer novas leituras, recortes ou até mesmo interferências artísticas na obra encenada. Muitas vezes a coxia é o melhor lugar para um fotógrafo assistir, registrar e vivenciar teatro.

Foto 1: Caio Lírio – Espetáculo “Criança Ferida”
Foto 2: Caio Lírio – Espetáculo “Medéia Negra”

Caio Lírio é homem cisgênero, baiano, nascido e criado em Salvador. Foi à beira mar e andado muito pela Soterópolis que adquiriu suas referências culturais, intelectuais, artísticas e, principalmente, afetivas. É fotógrafo, jornalista, publicitário, ator, curioso. Flerta desde muito jovem com o cinema e as artes do espetáculo e é dessa relação de admiração que nasce boa parte do seu trabalho enquanto artista visual e fotógrafo de cena. Adora fazer trilhas, mergulhos demorados no Porto da Barra, andar na rua e de risadas frouxas entre goles de café e mordidas num abará bem apimentado.

vol. 1, no. 1 – 2021

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