Ellen Mello

Meu nome é Ellen, sou produtora e gestora cultural. Sou Mestra pelo Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade, na Linha de Pesquisa Cultura e Desenvolvimento (UFBA). Sou gestora da Dimenti há 23 anos e sou produtora cultural da UFRB, com atuação no CECULT em Santo Amaro. Durante muito tempo eu também me apresentei como formiga, como uma operária da cultura. Isso continua sendo verdade, mas eu tenho pensado muito na fábula da cigarra e da formiga e ela tem me ajudado a entender os binarismos e dicotomias que se estabelecem entre essas palavras – gestão e criação.

Desenvolvo junto à Dimenti, desde a sua fundação em 1998, um trabalho que propõe interfaces entre a gestão e a criação artística, reunindo esforços na viabilização de projetos que envolvem criação e pesquisas artísticas, gestão de espaços culturais, circulação e difusão de obras, realização de projetos em linguagens artísticas diversas, realização de projetos culturais e pedagógicos como festivais, oficinas, residências artísticas, seminários, fóruns, etc. Essa forma de atuação da Dimenti  atravessa a minha própria formação e reforça a Dimenti como um laboratório prático em constante mutação.

Mas eu vou voltar um pouco à fábula da cigarra e da formiga, que todo mundo deve conhecer. São muitas as versões dessa história (desde que La Fontaine contou pela primeira vez no século XVII), mas no geral temos de um lado uma formiga pragmática e previdente, trabalhando durante o verão para acumular provisões em seu formigueiro para o rigoroso inverno. Do outro lado, a cigarra (uma cantora alegre), acusada de irresponsável e caótica, supostamente concentrada apenas do seu “prazer”, cantando durante todo o verão e que vai implorar abrigo e alimento à formiga durante o inverno.

A gente pode encontrar algumas associações aí – a figura da cigarra pode encontrar uma associação com artistas e, a formiga, com funções mais burocráticas, logísticas, organizativas, algo como uma gestora, uma produtora, ou tudo que seria (supostamente) o avesso de quem realiza a ação artística em si.

Compreendo que acessar a lente de quem tem o foco principal nos bastidores pode ser também compartilhar de uma visão de gestão encharcada de perspectivas artísticas. 

Ellen Mello

Analisando os desfechos de algumas versões dessa história, bem como suas “lições de moral”, teremos um pequeno panorama de como parte da sociedade e também parte do campo da cultura, lida com essas duas perspectivas. Numa das versões da história, a formiga diz para cigarra quando esta última vai lhe pedir ajuda: “Se você tivesse ouvido o meu conselho no verão, não estaria agora tão desesperada. Preferiu cantar e tocar violão?! Pois agora dance!” E dizendo isto, fecha a porta, deixando a cigarra entregue à sua sorte, segurando o seu violão.

Moral da história: não pense só em se divertir ou, nesse caso específico, em fazer arte, mas você deve pensar no futuro e… trabalhar, ou seja, para essa versão da fábula, “trabalhar” é o oposto de “fazer arte”. E tem mais, se você não trabalhar, será punida, ou melhor, vai “dançar”. Porque temos essa outra pérola, na fábula, que dançar é metáfora para “se dar mal”.

A música feita pela cigarra sequer é considerada como trabalho e o seu total desamparo é lição a ser aprendida, afinal enquanto a cigarra (supostamente) se “diverte”, a formiguinha supostamente só “trabalha”. No fim, o esforço da formiga é compensado pela fartura e a cigarra, que não se planejou, ficou sem ter o que comer ou onde se abrigar

“Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência…”  Será?

Além de estabelecer uma problemática oposição em relação às figuras da cigarra-artista e da formiga-produtora, a narrativa não ajuda a pensar uma cigarra mais previdente ou uma formiga mais inventiva. 

Eu parto de um lugar muito próximo do fazer artístico, mas nunca tive meu acento de atuação na cena propriamente dita. Compreendo que acessar a lente de quem tem o foco principal nos bastidores pode ser também compartilhar de uma visão de gestão encharcada de perspectivas artísticas. 

A Dimenti surgiu em 1998 e junto com ela a produtora que eu sou. Primeiro, era “O” Dimenti, um grupo artístico que articulava as linguagens das artes cênicas, da música e do audiovisual. Depois, transmutamos o artigo O para A – “a” Dimenti – e essa transformação se deu por estarmos mais focadas na gestão e produção cultural.

Mas eu acredito que meu trabalho como gestora passa por relacionar gestão e criação, como duas faces da mesma moeda, mesmo que possam ser consideradas como processos antagônicos e que se perceba uma relação historicamente tensa entre essas noções. 

Isso porque a gestão é frequentemente associada a padrão e controle e a criação, como caos e diversidade. Na minha atuação, o que eu percebo é que as práticas da gestão e da criação podem se embaralhar a tal ponto de não conseguirmos identificar onde começa uma e onde termina a outra. E essa condição revela que as ações são sempre motivadas por escolhas estéticas e éticas, o que me deixa em permanente busca de uma atuação como gestora que seja crítica e politicamente implicada. 

Percebo é que as práticas da gestão e da criação podem se embaralhar a tal ponto de não conseguirmos identificar onde começa uma e onde termina a outra. E essa condição revela que as ações são sempre motivadas por escolhas estéticas e éticas.

Ellen Mello

Tem dois conceitos da área da gestão que eu utilizo no meu mestrado (que tem um acento na gestão de festivais) que são muito valiosos a meu ver. São conceitos que andam juntos e de mãos dadas – a Improvisação Organizacional e a Estética da Imperfeição. Eu trago eles para meu estudo principalmente a partir da ótica de dois pensadores contemporâneos da área da administração (que são Karl Weick e Miguel Pina e Cunha). Eles utilizam esses termos para discutir crescimento, renovação e criatividade dentro de empresas de diversos segmentos.

E meu interesse caminha na direção de entender esses conceitos associados ao trabalho de gestão das artes. Entender como os Estudos Organizacionais e os Estudos da Cultura podem se aproximar e evitar as estereotipias entre esses dois ambientes – gestão e criação. 

O que eu percebo é que gestão é entendida como terreno prescritivo e produtivista que requer planejamento, ordenamento e controle; e a cultura como ambiente supostamente despreparado, totalmente subjetivo, sem sistemática e indicadores sobre si. Minha intenção é fugir desses clichês, reconsiderar essas possíveis contradições e encontrar onde, como e porque esses estudos se relacionam de forma tão pertinente. 

Podemos pensar no próprio conceito da improvisação. Pensar como o termo improvisação é reconhecido historicamente e como o discurso do senso comum sobre a improvisação coleciona termos como “às pressas”, “irresponsabilidade”, “remendo”, “imperícia”, que muito colaboram na estabilização de uma prática-teórica normativista de gestão e, por isso mesmo, excludente.

Os estudos mais conservadores da administração trazem o termo improvisação como uma disfunção organizacional. Essas práticas da gestão que refutam a improvisação possuem caráter restritivo, com um ideal regulatório que tenta fazer desaparecer as diferenças dos corpos, através de identidades estáveis e modo de produção padronizado, sem levar em conta seus contextos.

A requalificação desse termo é importante e tem a arte e suas diversas linguagens como motivador de novas abordagens.

E nesse contexto, considero também a noção de “estética da imperfeição” como prática discursiva e de mudança de paradigmas, que é pré-requisito para acolher a improvisação organizacional. É preciso encontrar beleza e inteligência no imperfeito, ir além dos polos certo e errado. Nesse sentido, questiono como a cultura e seu ambiente contraditório e complexo pode caber numa análise como a dos estudos mais conservadores sobre o tema e os perigos de transformar esse campo, justamente por não se adequar a ele, em um campo sempre associado ao despreparo.

Se a improvisação conduzida por artistas em suas criações serve de metáfora para a ação de gestores dos mais diversos setores produtivos da indústria e do comércio, é valioso pensar nessa metáfora para dar a entender esses processos dentro da gestão de matéria tão subjetiva como a cultura e as artes. Podemos entender e transpor para nossos estudos sobre gestão as relações de poder articuladas nas práticas de significação e de normatização que representam uma gestão ideal. 

A gestão canônica proposta e reiterada pelos estudos organizacionais mais conservadores torna-se fértil para a exclusão da gestão das artes como campo pertinente de estudo e não apenas como um lugar de “falta”.

Ainda que na minha pesquisa eu faça uma análise sobre a experiência de gestão que eu ajudei a compor na Dimenti, não pretendo utilizá-la como modelo a ser seguido. Também não apresento um programa de soluções definitivas para a gestão de um empreendimento cultural a longo prazo; meu objetivo é compartilhar com vocês a forma como a Dimenti se relaciona com os problemas que se apresentam na vivência dessas experiências de gestão.

Fotos: Ramona Azevedo – Espetáculo “Torre de Babel”

Escute a versão deste texto em podcast:

Ellen Mello é mulher, negra, lésbica, nordestina e trabalha com produção cultural há mais de 20 anos. É formada em Jornalismo pela UFBA, Publicidade pela UCSal e mestra pelo Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (IHAC-UFBA). É fundadora e diretora de produção da Dimenti, ambiente de criação e produtora cultural, contexto no qual é curadora e gestora de diversos projetos artísticos e culturais. É servidora da Universidade do Recôncavo, onde atua como produtora do CECULT – Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas. Ellen é formiga e é cigarra.

vol. 1, no. 1 – 2021

Deixe aqui seu comentário.