Cláudia Salomão

É com profundo interesse que vejo surgir a Revista LABCENAS, cuja proposta de lançar um olhar sobre o espaço da técnica nas artes do espetáculo nos provoca a refletir sobre um tema ainda pouco explorado na academia e no âmbito da gestão cultural: os profissionais da área técnica.

Camareiras, maquinistas, cenotécnicos, eletricistas, técnicos de som, contrarregras, costureiras, chefes de palco e operadores de luz são alguns dos profissionais que fazem parte desse grupo que convencionou-se chamar de técnicos de palco ou técnicos em espetáculos, como prevê a norma jurídica.

Uma vez que os estudos existentes recaem, predominantemente, sobre o âmbito do trabalho artístico, observa-se uma lacuna a ser preenchida. Faz-se necessário falar sobre os profissionais da área técnica, trazer à tona a sua importância e através dessa visibilidade avançar nas discussões a respeito dos processos de formação, qualificação e condições de trabalho.

Desconhecidos do grande público e imprescindíveis à cadeia produtiva do espetáculo, esses profissionais possuem suas atividades previstas na Lei 6.533/78, conhecida como Lei dos Artistas e Técnicos e regulamentada pelo Decreto 82.385/78, que estabelece regras e garantias nem sempre respeitadas nas relações de trabalho. Num ambiente onde predomina a informalidade, os técnicos em espetáculos operam em condições pouco favoráveis. Baixos salários, carga horária excessiva, acúmulo de função e contratação por atividades distintas das exercidas são alguns dos obstáculos encontrados no dia a dia da profissão.

Outro aspecto a ser observado é a escassa oferta de cursos de formação e qualificação profissional. Historicamente existe a comparação do trabalho técnico nas artes com um saber fazer artesanal onde prevalece a tradição da relação mestre/aprendiz, na qual o conhecimento é transmitido por via oral ou através da observação. Essa realidade, porém, vem se transformando uma vez que o exercício da atividade técnica está amplamente relacionado ao uso das novas tecnologias e influenciado pelos procedimentos inerentes à gestão técnica.

A expressão engenharia do espetáculo, ao agregar em seu conceito os diversos campos que compõem o universo do espetáculo, nos leva a refletir sobre a complexidade das atividades relativas ao conjunto dos saberes relacionados a cenografia, cenotecnia, iluminação, sonorização, maquiagem, figurino, visagismo, mídias digitais, efeitos especiais, bem como a produção técnica na atualidade.

Neste contexto, o advento da pandemia da Covid-19 acelerou processos já em andamento, a exemplo da necessidade do domínio das ferramentas digitais, ao colocar uma grande parcela da população mundial, e particularmente os profissionais da área técnica, frente a frente com múltiplas demandas antes não comuns à maioria.

A escassez de trabalho e a necessidade de adaptação ao atendimento remoto por meio da manipulação de câmeras, celulares, computadores, elaboração de projetos, envio de arquivos, participação em lives e eventos virtuais expõe uma face cruel da realidade dos técnicos em espetáculos. Além da falta de oportunidade de trabalho, muitos não estão preparados para atender às novas demandas. Existe um vácuo na formação destes profissionais e um abismo quanto ao aspecto da inclusão digital.

As atividades artísticas em tempos de pandemia passaram a ser mediadas pela internet numa relação intensa com o audiovisual, um movimento que já se anunciava anteriormente. Na ausência das atividades de montagens, ensaios e apresentações às quais estavam habituados é necessário um grande esforço para manter-se atuante enquanto a cura não chega e ações efetivas não alcançam a todos.

Qual teatro surgirá num mundo pós-pandemia? Qual será o perfil do profissional técnico neste novo contexto?

Cláudia Salomão

O teatro, sendo essencialmente a arte da presença, busca se adaptar a esse novo panorama. Qual teatro surgirá num mundo pós-pandemia? Qual será o perfil do profissional técnico neste novo contexto? Tais questionamentos ainda não encontram respostas, mas revelam a necessidade de uma formação que dialogue com as diferentes áreas do conhecimento.

No Brasil, país com diferenças sociais profundamente acentuadas, iniciativas que promovam ações formativas e de qualificação profissional na área técnica do espetáculo precisam ser estimuladas, são fundamentais para a sobrevivência destes profissionais num mundo em constante transformação.

Para além de ações que garantam a manutenção dos postos de trabalho, é fundamental investir na formação profissional. Não é possível perder de vista todos aqueles que não têm acesso à formação superior em uma universidade ou a oportunidade de estudar em uma instituição de ensino profissionalizante. 

Neste sentido, é imprescindível a contribuição de projetos  patrocinados com dinheiro público através da promoção de ações formativas na área técnica do espetáculo. Essas ações representam uma contrapartida social importante, preenchendo um espaço de troca de conhecimento onde existe uma maior flexibilização no acesso a novas tecnologias e atualização de conteúdos.

Qualquer que seja a forma de se fazer teatro num futuro próximo, uma coisa me parece clara e inevitável: haverá necessidade de profissionais preparados e atentos às novas demandas do mercado. 

Foto: Ramona Azevedo – Espetáculo “Torre de Babel”

Cláudia Salomão é mulher cisgênero homossexual parda. É produtora, gestora técnica em espaço público e professora universitária (UFRB). É Bacharela em Direito  pela UFBA Mestra em Artes Cênicas (PPGAC/UFBA) e Especialista em Docência do Ensino Superior (UNIFACS). Em 1991 foi  contratada como Chefe de Palco do Teatro Castro Alves e em 1997 passa a ocupar a Gerência Técnica. Tem ampla experiência como Produtora Técnica e Executiva de Festivais, carnaval, shows e espetáculos de diferentes linguagens. Atualmente desenvolve estudos e pesquisas nas áreas da gestão técnica do espetáculo e teatro de formas animadas com foco no teatro lambe-lambe.

vol. 1, no. 1 – 2021

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